Sabiá-cica: O psitacídeo que cantar como sabiá
Um papagaio que não parece um papagaio
Olá Fotógrafos!

Existe uma ave na Mata Atlântica que pode confundir até mesmo observadores experientes. Ela tem o corpo verde, o bico claro e o jeito discreto típico de quem prefere permanecer escondida entre as folhas. À primeira vista, poderia ser apenas mais um dos muitos psitacídeos que habitam nossas florestas. Mas então ela canta, e o canto pode lembrar o de um sabiá. O sabiá-cica (Triclaria malachitacea), um psitacídeo singular, pertencente à família Psittacidae e ao gênero Triclaria, que é monotípico — ou seja, possui apenas esta espécie conhecida. Seu nome em inglês, Blue-bellied Parrot, faz referência justamente à característica mais marcante dos machos: o ventre azul-arroxeado. O bico é quase branco e o anel ao redor dos olhos é acinzentado. O dimorfismo sexual é bastante evidente. O macho adulto apresenta o ventre azul ou violeta-azulado, enquanto a fêmea é completamente verde. Essa diferença é uma das melhores pistas para quem consegue observar a espécie com tempo suficiente.

E esse é justamente um dos desafios. O sabiá-cica não costuma facilitar a vida do fotógrafo. Ele frequentemente permanece imóvel entre a vegetação, especialmente no interior da floresta, onde sua plumagem verde funciona como uma excelente camuflagem. Ele é associado principalmente à Mata Atlântica, especialmente às florestas úmidas da faixa litorânea e às encostas da Serra do Mar.
Historicamente, sua distribuição abrangia áreas desde o sul da Bahia até o nordeste do Rio Grande do Sul. Atualmente, os registros se concentram principalmente nas regiões Sudeste e Sul do Brasil, com ocorrências conhecidas em estados como Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. É uma espécie que pode ocupar florestas primárias e também ambientes secundários maduros, mas apresenta forte relação com áreas florestais bem estruturadas. Para o observador de aves, isso significa uma coisa importante: procurar o sabiá-cica é, muitas vezes, procurar a própria floresta.

O segredo está no ouvido
Talvez a característica mais fascinante do sabiá-cica seja justamente aquela que não podemos fotografar. Seu canto pode lembrar o de diferentes espécies de sabiás. Há registros e observações indicando que indivíduos podem apresentar vocalizações semelhantes às de sabiás encontrados na região. Uma das hipóteses é que parte dessas vocalizações seja aprendida durante a fase juvenil, a partir da convivência com outras aves. É uma característica extraordinária para um psitacídeo. Imagine caminhar pela Mata Atlântica, ouvir um sabiá cantando e procurar entre os galhos... apenas para descobrir que o autor daquele canto é, na verdade, um papagaio verde escondido na copa. Para quem observa aves, momentos assim mostram por que identificar uma espécie apenas pela aparência pode ser uma armadilha. Às vezes, o melhor guia é o ouvido. Uma alimentação muito mais variada do que se imaginava. Durante algum tempo, o sabiá-cica foi associado de maneira bastante forte ao consumo dos frutos do palmito-juçara (Euterpe edulis). A relação existe, mas a alimentação da espécie é mais diversificada. Estudos registraram o consumo de frutos de diferentes árvores da Mata Atlântica e também de flores, sementes e outros recursos vegetais. Isso reforça uma ideia importante para quem fotografa aves: uma boa estratégia de observação começa por conhecer as plantas do lugar. Encontrar uma árvore frutificando pode ser muito mais eficiente do que simplesmente caminhar pela floresta esperando que uma ave apareça. Em Santa Rosa do Lima - SC, eles se alimentam praticamente de milho e frutas aos arredores das casas que frequentam durante os meses mais frios.

Reprodução: Um especialista em ocos de árvores
O sabiá-cica utiliza ocos de árvores para nidificar. No Sul do Brasil, seu período reprodutivo ocorre principalmente entre outubro e janeiro. Há registros de posturas com dois ou três ovos, e ambos os adultos participam dos cuidados com a prole. Isso revela outra razão pela qual árvores maduras são tão importantes. Uma floresta não precisa apenas oferecer alimento. Ela também precisa oferecer lugares seguros para reprodução. Quando árvores antigas desaparecem, desaparecem também muitos dos ocos naturais utilizados por aves que dependem deles.

Um desafio para o fotógrafo
Fotografar um sabiá-cica exige paciência. Ele pode permanecer imóvel por bastante tempo, escondido na vegetação, e muitas vezes passa despercebido mesmo quando está relativamente próximo. Por isso, mais do que equipamento, essa é uma espécie que recompensa leitura de ambiente, então preste atenção aos chamados, observe as árvores frutificando e procure movimentos discretos no interior da copa. E, principalmente, não tenha pressa. Quando finalmente o sabiá-cica aparece, o contraste entre o verde profundo do corpo e o azul-violeta do ventre do macho pode produzir uma das imagens mais bonitas que a Mata Atlântica oferece.
Boas fotos e até a próxima edição!

