Kacau Oliveira — cartas e newsletter de fotografia
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O único papagaio do Brasil que migra

Todo ano, 20 mil papagaios cruzam o céu — e quase ninguém sabe

O único papagaio do Brasil que migra

Todo ano, 20 mil papagaios cruzam o céu — e quase ninguém sabe

Olá Fotógrafos!

Existe um papagaio no Brasil que faz uma viagem de centenas de quilômetros todo outono. E o espetáculo acontece em Santa Catarina.

Se eu te dissesse que existe um papagaio que migra, você provavelmente ia achar que era piada. Papagaio voa, claro, mas migração a gente associa com andorinha, com ganso, com aquelas aves que aparecem em documentário.

Mas o papagaio-charão — Amazona pretrei — faz exatamente isso. Todo outono, entre março e maio, cerca de 20 mil indivíduos deixam o Rio Grande do Sul e voam para a Serra Catarinense em busca de uma única semente: o pinhão da araucária.

E o mais impressionante: quando eles chegam, o céu de Urupema — A cidade mais fria do Brasil — se enche de verde e vermelho num espetáculo que parece cena de filme.

Eu já vi essa revoada. E posso te dizer: é daquelas experiências que mudam a forma como a gente entende fotografia de natureza.

O charão é o único papagaio migratório do Brasil. A razão é simples e bonita: ele depende do pinhão. Quando as araucárias do Rio Grande do Sul terminam sua frutificação, os bandos se deslocam para o sudeste de Santa Catarina, onde as araucárias de altitude amadurecem as sementes um pouco mais tarde.

São mais de 70 km de voo. De uma vez. Em bando. Essa relação entre o charão e a araucária é daquelas que a gente não esquece quando presencia. A ave precisa da árvore, a árvore precisa da ave — o pinhão que cai no chão e não é comido germina. É mutualismo puro, acontecendo agora, no nosso quintal.

O melhor momento para observar — e fotografar — é ao entardecer, por volta das 16h30. Os bandos retornam aos dormitórios depois de um dia se alimentando, e o céu se enche de centenas, às vezes milhares de aves voando juntas.

O som é ensurdecedor. Gritos graves, assobios estridentes. Aquele barulho que arrepia.

Visualmente, é impressionante: o verde da plumagem contra o céu outonal, com flashes vermelhos das asas abertas. A máscara vermelha ao redor dos olhos — que dá o nome "charão" — aparece quando a luz bate de lado.

O epicentro é Urupema, na Serra Catarinense, a 1.800 metros de altitude. A cidade recebe o Festival dos Papagaios todo ano em abril — em 2026 aconteceu a 13ª edição, nos dias 23 a 25. O evento é gratuito e inclui saídas de campo com guias, palestras, oficinas de fotografia e, claro, a observação da revoada.

Mas você não precisa ir durante o festival. De março a Maio, os papagaios estão lá. O festival apenas organiza o acesso e agrega uma comunidade de gente que ama a mesma coisa que você.

Mas como fotografar toda beleza desses papagaios? Aqui vão algumas orientações práticas que fazem diferença:

Para a revoada em massa:

  • Grande-angular (24-35mm) captura a escala do bando contra o céu

  • Velocidade a partir de 1/1600 para congelar o movimento

  • ISO entre 1250 e 2000 — a luz do entardecer cai rápido

  • Chegue 30 minutos antes (por volta das 16h) para encontrar boa posição

Para detalhes individuais:

  • Teleobjetiva (600mm ou mais) para isolar aves em poleiros

  • Fundo de araucária funciona como contexto perfeito

O que evitar:

  • Playback — papagaios são sensíveis e podem abandonar a área

  • Aproximação excessiva — especialmente perto de ninhos

  • Flash nos bandos — pode desorientar as aves no retorno ao dormitório

Por que isso importa?

O charão é classificado como Vulnerável pela IUCN. A principal ameaça não é a falta de pinhão — é o tráfico de filhotes. A captura nos ninhos para venda como animais de estimação reduziu drasticamente a população ao longo das décadas.

O desmatamento das araucárias também pesou. Das décadas de 1920 a 1960, as matas de pinheiro-do-paraná foram reduzidas a fragmentos. O charão sobreviveu, mas depende da conservação desses remanescentes.

Fotografar o charão é também documentar essa história. Cada imagem que você faz contribui para mostrar que essa espécie existe, que ela é importante e que ela merece proteção.

Lembre-se!

Quando você for fotografar o charão, nunca revele a localização de ninhos. O tráfico ainda é real, e a informação errada nas mãos erradas pode custar caro para os filhotes.

Fotografar com responsabilidade é garantir que essa espécie continue existindo para as próximas gerações de fotógrafos.

O papagaio-charão é daquelas espécies que a gente não esquece depois que vê de perto. O voo em bando, o som, a cor, a história de dependência com a araucária — tudo se conecta numa experiência que vai muito além da foto.

Se você nunca foi a Urupema nessa época, coloca na lista. Não precisa ser fotógrafo profissional para se emocionar com aquela revoada. Mas se você é, vai voltar com imagens que contam uma história que poucos conhecem.

E se já foi, me conta aqui: qual foi a foto que mais te marcou?

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Toda semana, uma nova carta. Nenhuma mais importante que a anterior; nenhuma menos importante que a próxima.

— Kacau
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