Kacau Oliveira — cartas e newsletter de fotografia
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A coruja que não constrói ninho

E por que isso não é preguiça

A coruja que não constrói ninho

E por que isso não é preguiça

Olá, fotógrafos!
Ela é a maior coruja das Américas. E não constrói o próprio ninho. A Jacurutu caça gambás, voa em silêncio absoluto e usa ninhos alheios. Nada disso é acidente.

Tem um som que, se você já passou uma noite no campo, provavelmente conhece. É grave, rítmico, e parece vir de todos os lugares ao mesmo tempo: "huuu, huu-huuú, huuu, huuu".

Esse é o canto da Jacurutu. A maior coruja do Brasil e de todas as Américas.

Ela mede até 63 centímetros, tem envergadura de um metro e meio, olhos amarelos que parecem enxergar através de você, e garras que exigem 28 libras de força para serem abertas. É uma máquina de caça noturna tão eficiente que ganhou o apelido de "tigre dos ares".

A pirata dos ninhos alheios

Isso mesmo. Ela não constrói. Ela ocupa.

Quando chega a época de reprodução — no inverno, quando as noites são mais longas — a Jacurutu procura ninhos abandonados de gaviões, garças e outras aves grandes. Também usa ocos de árvores, fendas em penhascos e, mais raramente, uma depressão no chão entre a vegetação.

E antes que alguém pense que isso é preguiça ou esperteza, a lógica é outra: a jacurutu é uma predadora de topo. O tempo e a energia que ela gastaria construindo um ninho são melhor investidos caçando e protegendo o território.

É uma questão de eficiência, não de caráter

O voo que não faz som

Se tem coisa que me impressiona na jacurutu — e olha, são muitas — é o voo silencioso.

As penas dela têm uma estrutura especial que elimina componentes ultrassônicos do som. Quando ela mergulha de um poleiro sobre uma presa, o animal simplesmente não ouve nada.

É como se o ar cooperasse com a caça. E isso é resultado de milhares de anos de evolução ajustando cada detalhe.

Generalista por necessidade

A jacurutu come praticamente tudo que consegue dominar. Roedores, gambás (sim, ela é imune ao spray do cangambá), lebres, patos, garças, outras corujas, pequenos gaviões, sapos, tartaruguinhas recém-eclodidas, aranhas, escorpiões, grandes insetos e até morcegos — que ela captura em voo.

Essa versatilidade é o que permite que ela viva em tantos lugares diferentes: do Canadá à Argentina, de florestas a desertos, de campos a áreas urbanas com parques arborizados

Como encontrar (e fotografar) a Jacurutu

A jacurutu é mais acessível que muita gente imagina. Ela não precisa de mata fechada — pelo contrário, prefere bordas de mata, capões, pastagens com árvores isoladas e até grandes parques urbanos.

Aqui vão algumas orientações práticas:

Para localizar:

  • Ouça o canto ao entardecer e ao amanhecer — é o melhor "GPS"

  • Procure árvores isoladas em áreas abertas — são os poleiros favoritos

  • Fique atento as gralhas fazendo barulho — pode ser mobbing em uma jacurutu escondida.

Para fotografar:

  • Ao crepúsculo: silhueta contra o céu alaranjado, tele 300-600mm

  • Em voo: AF-C, tracking, 1/12500+ — o voo é silencioso e a detecção é o desafio

  • Com presa: áreas rurais com pastagens são boas para encontrar caça ativa

  • ISO alto sem culpa: é noite, a luz é pouca, e a foto vale o ruído

O que evitar:

  • Playback próximo ao ninho — corujas são sensíveis e podem abandonar o local

  • Lanterna forte nos olhos — a visão noturna delas é prejudicada por luz direta

  • Aproximação excessiva na reprodução — a Jacurutu é agressiva na defesa e pode se machucar

A Jacurutu é daquelas espécies que a gente não esquece depois que presencia. O canto grave, o voo silencioso, o olhar amarelo, a presença imponente num poleiro ao entardecer.

Ela não constrói ninho, não migra, não se esconde. Ela simplesmente ocupa o território com a calma de quem sabe que é a predadora de topo.

Na próxima vez que você ouvir um "huuu, huu-huuú, huuu, huuu”" no campo, pare. Escute e se tiver sorte, vai encontrar uma das aves mais fascinantes que a natureza brasileira oferece.

Se você já ouviu ou fotografou uma jacurutu, me conta como foi. Adoro saber dessas histórias de campo — e pode render um próximo conteúdo por aqui.

Toda semana, uma nova carta. Nenhuma mais importante que a anterior; nenhuma menos importante que a próxima.

— Kacau
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